segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

2° encontro traz pesquisas sobre a presença da população negra no Ceará

O segundo encontro do projeto Camutuê – Comunicação Livre de Racismo, realizado no dia 25 de janeiro, discutiu o tema “Existem negros no Ceará?”. A atividade contou com a participação dos professores Hilário Ferreira, mestre em História pela UFC, e Rosa Ribeiro, doutora em educação pela Unicamp.

Hilário e Rosa são precursores da pesquisa e ensino de africanidades no estado do Ceará, especialmente a história das populações negras, através do Grucon – Grupo de Consciência Negra no Ceará, criado na década de 1990 por estudantes e militantes. Os professores afirmaram que a evolução dos estudos sobre a presença do negro no Ceará acontece em 1995, com aparecimento de cursos e publicações influenciados pelo grupo. Com o resultado dessas pesquisas, descobriram que houve uma tentativa, ao longo da história e na própria universidade, de negar a presença do negro no estado. “Foi construída uma representação, por meio de discursos e políticas, construídas ao longo da história do Ceará, na perspectiva de produzir conteúdos mentais da negação do negro”, afirma Rosa.

“A história do negro no Ceará se limitava aos temas escravidão e abolição e, depois de passado o período colonial, negou-se a presença da população negra no estado, justificando que não havia espaço para a mão-de-obra desses”, explica Hilário.

Os primeiros registros da presença do negro estão nas pesquisas produzidas pelo historiador cearense Geraldo da Silva Nobre, que, por pertencer a grupos vistos como conservadores, enquanto associados do Instituto do Ceará, foi recusado como fonte pelos teóricos contemporâneos cearenses e seus registros não foram levados em conta na afirmação da história da população afro-descendente no Estado. De fato, o Instituo do Ceará foi o responsável, através de seus representantes, de denegar a presença do negro. Enquanto exceção, Nobre abriu o precedente para as pesquisas do Grucon, que buscou nos registros do censo da época, pós-abolição, indicativos da população negra cearense. Segundo os dados, os negros no Estado seriam majoritariamente composto por descendentes de congoleses e angolanos, o que fazia predominar as línguas banto e kibundo. Segundo Hilário, “o censo de 1804 mostra um número de negros superior ao de brancos no Estado em muitas vilas, especialmente de negros libertos. Fortaleza figurava no século XIX, portanto, como marcadamente de cultura afro-angolana”.

O positivismo e o darwinismo eram as escolas de pensamento que influenciaram os historiadores da época, que aplicavam idéias de eugenia (ideologia de embranquecimento ou de pureza racial, que culminou no Holocausto), inclusive negando a factual presença negra. “Nós fomos oprimidos até na nossa própria história”, destaca Rosa. Para a professora, deixar de ser preconceituoso significa reconhecer e, posteriormente, trabalhar para o fim dessas atitudes. Ela explica que os profissionais de educação, assim como os historiadores que revisitaram a História Oficial do Ceará para contá-la novamente e provar a presença do negro, precisam atuar contra o racismo e a opressão impostos a população negra. “Quando não assumimos que temos preconceito, estamos escamoteando a verdade”, enfatiza.

A coordenadora pedagógica do projeto, Silvia Maria Vieira, alega que o encontro foi importantíssimo para o entendimento pelos profissionais de mídia participantes do curso de como se deu a presença da população negra no Ceará e seus registros de descendência. Além disso, ela lembra que é necessário assumirmos o combate ao preconceito como uma responsabilidade profissional. “A consciência negra e a afirmação da presença negra no estado é um compromisso de todos, especialmente da escola, da família e dos espaços de formação de opinião, sendo para os profissionais que atuam na comunicação uma exigência de seus códigos de ética laborais”, enfatiza Silvia.

Tráfico interno
Outro aspecto que marcou a presença da população negra no Ceará foi o tráfico interno de escravos, a partir das transações realizadas notadamente com o sudeste, elemento importante para economia da época, segundo o professor Hilário Ferreira.
Esse também será o tema do livro que Hilário lançará no dia 21 de março, no Museu do Ceará, chamado de “Catarina, minha nega, tão querendo te vender”, fruto de dissertação de mestrado.

Comunicação IJC
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